Blog do Julio Falcão

Julho 07 2009
Depois da espuma, o completo vazio

Uma das maiores imposturas arquitetadas por Daniel Dantas e nauseantemente repetida por uma banda de parceiros do banqueiro que se declaram jornalistas caiu por terra. No tão citado processo de Milão que apura a espionagem realizada pela Telecom Italia não há sequer uma linha capaz de sustentar a versão difundida no Brasil a respeito do inquérito. A íntegra pode ser acessada em www.tribunale-milano.net/index.phtml?id.

Um breve histórico: flagrado pela Operação Chacal em um esquema de espionagem no Brasil, Dantas tentou inverter a acusação a seu favor. Aproveitou-se do fato de a Telecom Italia ter praticado crime semelhante em seu país de origem (a companhia italiana é investigada em Milão por ter grampeado e produzido dossiês contra centenas de personalidades), mas sem relação direta com os acontecimentos por aqui.

A tese do banqueiro brasileiro era de que policiais federais nativos foram pagos pela Telecom Italia para realizar a Operação Chacal. A PF integraria um grupo de perseguidores que incluiriam também jornalistas (os mais críticos à sua atuação), todos regiamente remunerados para atacá-lo. Quem intermediaria os pagamentos aos “adversários” de Dantas seria o empresário Luís Roberto Demarco, desafeto do dono do Opportunity, e seu advogado Marcelo Elias. Até uma suposta tradutora, Luciane Araújo, apareceu para reforçar a teoria oportunística. Na edição 490 de CartaCapital, o repórter Paolo Manzo desmontou a armação, difundida a partir de um site de assessoria de imprensa a advogados que se disfarça de jornalístico.

Após pedir 50 mil euros para conceder uma entrevista (solicitação negada pela revista), Luciane Araújo conversou brevemente com Manzo. Foi o suficiente para ficar demonstrado que ela nada sabia a respeito do tema. Após a reportagem de CartaCapital, a tradutora, testemunha “bombástica”, desapareceu do noticiário no Brasil.

Disponível na íntegra no site do Tribunal de Milão, o inquérito revela que a estratégia de Dantas deu com os burros n’água, apesar do esforço de seus asseclas. Os procuradores italianos não compraram sua versão. Ao longo do texto, não há nenhuma menção ao nome do empresário Demarco ou do advogado Elias. Muito menos a um complô financiado pela Telecom Italia para inventar uma investigação contra o banqueiro no Brasil.

Ao contrário. A investigação cita fatos do período em que DD se aproximou dos italianos. Segundo os procuradores, funcionários da operadora de telefonia italiana teriam bisbilhotado a vida de uma “parte” ligada aos fundos de pensão, cujo nome não foi citado, e de dois executivos contratados pelas fundações: Alberto Guth (no texto, seu nome apareceu grafado como Gutt) e Ricardo Knopfelmacher, o K. É a única referência ao Brasil. O motivo? Os fundos se opunham ao acordo fechado entre Dantas e a Telecom Italia. Portanto, segundo os procuradores milaneses, a espionagem da empresa teria sido realizada contra adversários do banqueiro e não contra ele ou seus aliados.

Outra recapitulação necessária: em 2005, após sete anos de inúmeros golpes baixos e rasteiras mútuas, a Telecom Italia e o Opportunity assinaram um acordo. Os italianos se comprometeram a pagar cerca de 1 bilhão de reais pela participação do banco brasileiro na Brasil Telecom. O acerto estabelecia também o fim das dezenas de ações judiciais em tramitação. Quem costurou a negociação foi o megaespeculador Naji Nahas, então consultor da companhia italiana.

Menos de um ano depois, o acordo foi suspenso após os italianos constatarem que Dantas não seria capaz de cumprir suas promessas. O banqueiro havia prometido, entre outras coisas, extinguir processos judiciais cuja decisão não cabia a ele, mas aos acionistas majoritários da Brasil Telecom: os fundos e o Citibank. À época, a Telecom Italia era presidida por Marco Tronchetti Provera, mais tarde defenestrado da presidência da empresa por acumular dívidas e prejuízos bilionários. Nahas recebeu 25 milhões de euros para intermediar a transação, apesar de o negócio ter fracassado.
Fonte: Carta Capital - Por Sergio Lirio

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publicado por Julio Falcão às 21:50

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